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A história da Quinta do Vale Meão e seus vinhos

em 08.06.16

Como falei no post do resultado do Concurso de Vinhos do Douro Superior, durante o final de semana do evento fizemos várias visitas técnicas às quintas da região. A primeira delas foi à Quinta do Vale Meão, onde encontramos com Francisco Javier de Olazabal (conhecido como Vito), sua esposa Maria Luísa e sua filha Luísa, que é responsável pela área comercial e de marketing da empresa.
 
Vito Olazabal, Maria Luísa e Luísa
 
A história da Quinta do Vale Meão começou com a família Ferreira, da Casa Ferreirinha. Foi o segundo marido de D. Antónia Adelaide Ferreira que, em 1877, adquiriu 300 hectares de terra no Douro Superior, região ainda praticamente inabitável. Mas, ao longo dos anos, D. Antónia fez diversos investimentos na Quinta e na região, com a plantação de vinhas e construção de casas e armazéns, além do financiamento de estradas, pontes e hospitais. Após a sua morte, a propriedade passou para sua única filha, Maria de Assunção. Foi sua neta Maria Luiza, no entanto, a primeira a realmente habitar na Quinta, em 1919, juntamente com seu marido, o espanhol Ramon Olazabal. Dois anos depois, a família se mudou para o Porto, pois Ramon se tornou administrador da Casa Ferreirinha.
 
Foi apenas por volta de 1960 que a Quinta do Vale Meão passou a ser administrada mais de perto, quando Jaime de Olazabal, filho de Maria Luiza e Ramon, se tornou o responsável principal da Casa Ferreirinha – onde permaneceu até a sua morte, em 1982. Naquela época, uma viagem do Porto à Quinta durava mais de 5 horas (mas já teve épocas em que durava basicamente um dia inteiro).
 
Vito Olazabal, filho de Jaime, pisou pela primeira vez na Quinta aos 7 anos. Ficou encantado com o luar e seu sonho sempre foi poder, um dia, ser dono dessa propriedade. Após se formar em Economia, em 1966, Vito passou a integrar a Administração da Casa Ferreirinha. Foi nesta época, durante a gestão de seu pai, que a empresa ganhou mais notoriedade com a marca Porto Ferreira. Até então, a empresa não possuía nenhuma Quinta, apenas administrava aquelas de propriedade de seus acionistas. Foi quando o Conselho resolveu comprar três Quintas: do Porto, do Seixo e da Lêda – esta última no Douro Superior, com características similares às do Vale Meão. A Quinta da Leda foi escolhida por Fernando Nicolau de Almeida, que em 1952 resolveu produzir o famoso vinho Barca Velha, o primeiro tinto seco da região, conhecida pelos seus vinhos fortificados. E as uvas para a elaboração deste ícone português eram provenientes basicamente do Vale Meão.
 
 
D. Antónia era a trisavó de Vito e seu pai era proprietário de 1/16 avos da Quinta do Vale Meão. 
 
Entre 1971 e 1988, com o crescimento do negócio do vinho do Porto, novas vinhas puderam ser plantadas e outras substituídas. Neste período, Vito já dividia com seu primo a gestão da Quinta. 
 
Nessas replantações, Vito buscou a ajuda de José António Rosas, presidente da Casa Ramos Pinto e tio de sua esposa, Maria Luísa. Naquele tempo, ele estava desenvolvendo vários estudos sobre as castas da região e indicou a plantação da Touriga Nacional, que ainda hoje representa 40% das vinhas do Vale Meão. 
 
Em 1982, com a morte de seu pai, Vito herdou 6,25% da Quinta. Nos anos seguintes, vários tios e primos suas partes da Quinta do Vale Meão. Vito e seis primos compraram tais partes, reduzindo de 22 para 7 proprietários. 
 
Ainda em 82, Vito assumiu a Presidência do Conselho de Administração da Casa Ferreirinha, que contava com 140 acionistas, todos herdeiros de D. Antónia Adelaide Ferreira. Criada em 1898, o objetivo da empresa era comercializar os vinhos produzidos pelas propriedades dos membros da família. E virou, ao longo dos anos, uma empresa sólida e muito visada por grandes multinacionais. Uma delas, o Grupo Sogrape, empresa do ramo de bebidas alcoólicas, que comprou a Casa Ferreirinha em 1987.
 
A Presidência da empresa continuou com Vito, que também integrou o Conselho de Administração da Sogrape Vinhos de Portugal, três anos depois.
Em 1994, os primos ofereceram-lhe suas respectivas partes no Vale Meão. Ele ficou com 38% da Quinta e seus filhos, Francisco, Jaime e Luísa, com o restante. O mais velho, Francisco, que sempre se interessou muito pelo mundo dos vinhos e das vinhas, formou-se em enologia em 1992, ajudou-o a replantar mais de 26 hectares de vinhas.
 
Incentivado pelo filho e sabendo da qualidade das uvas, do sucesso do Barca Velha e do talento do filho, resolveu comercializar seus próprios vinhos, o que significava deixar de fornecer uvas à Sogrape e, também, renunciar ao seu posto na empresa. 
 
Em 1998, com 60 anos e após 35 anos trabalhando na Casa Ferreirinha/Sogrape, desligou-se da empresa para embarcar em um novo projeto com a esposa e os filhos. E assim nasceu a F. Olazabal & Filhos.
 
Hoje, produzem alguns dos melhores vinhos de Portugal, incluindo o vinho principal, o Quinta do Vale Meão, que em 2014 foi eleito o 4º melhor vinho pela Wine Spectator (safra 2011). 
 
Foi um prazer poder passar uma tarde com Vito e sua família, que nos receberam maravilhosamente bem. E o lugar é realmente lindo! 
 
Fomos recebidos, num dia de sol e calor, depois de umas 4 horas de viagem (Lisboa-Pocinho) com uma excelente taça de vinho branco e petiscos (queijos, chouriço, frutos secos) e depois seguimos para um almoço delicioso. Um dos melhores bacalhaus que comi em Portugal! 
 
 
Meandro do Vale Meão Branco Douro 2015
Elaborado com Arinto e Rabigato em iguais proporções, ainda não está no mercado. Mas já estava delicioso. Aromas de frutos tropicais, pêssego branco, flores do campo. Acidez na medida, com fim de boca bem mineral.
 
 
Meandro do Vale Meão Tinto Douro 2013
Produzido com 35% Touriga Nacional, 34% Touriga Franca, 20% Tinta Roriz, 6% Tinta Barroca, 3% Tinto Cão e 2% Sousão, com estágio em barricas de carvalho francês de segundo e terceiro uso. Cor intensa, com aromas de frutas vermelhas e pretas, notas florais. Taninos moderados e acidez média, com ótimo fim de boca.
 
 
F. Olazabal & Filhos Baga Monte Meão Douro 2013
Um dos primeiros vinhos feitos com Baga no Douro. 100% Baga. Cor rubi, com aromas de frutos vermelhos, cacau e baunilha. Taninos finos, acidez fresca. Bem equilibrado. 
 
 
Quinta do Vale Meão Douro 2012
60% Touriga Nacional, 30% Touriga Franca, 5% Tinta Barroca e 5% Tinta Roriz, com estágio em barricas francesas (80% novas e 20% de segundo uso). Cor rubi com reflexos violáceos. Aromas de ameixas, amoras, framboesa, com nota floral e leve toque mentolado. Uma madeira muito fina e sutil. Taninos ainda jovens e adstringentes. Acidez suculenta. Final longo com um pouco de especiarias. Muito equilibrado. Ainda jovem, com muito a desenvolver. 
 
 
Quinta do Vale Meão Vintage Port 2001
60% Touriga Franca, 20% Touriga Nacional, 5% Tinta Barroca, 5% Tinta Roriz, 5% Sousão e 5% de outras castas. Cor intensa, com aromas de cereja preta, ameixas secas, amêndoas, violetas secas. O álcool estava se mostrando levemente alto, devido ao calor. Acidez muito fresca. 
 
Infelizmente, a Quinta não possui estrutura de Enoturismo aberta ao público. Mas, se tiver a oportunidade de provar os vinhos, não perca! Quem importa é a Mistral.

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