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A modernidade da Adega Cartuxa

em 04.05.15

Na Semana Santa, voltei a Évora apenas para almoçar e fazer uma visita à Adega Cartuxa.

Sempre falo que gosto de visitar vinícolas menores e outras maiores para sentir as diferenças de produção, comercialização e até de relação com o ambiente e a sociedade. E, das grandes vinícolas que já conheci até hoje, a Cartuxa é, provavelmente, a que tem maior relação e interação com a comunidade onde está inserida. Mas isso por que é uma Fundação sem fins lucrativos, que promove ações de voluntariado, formações para o terceiro setor, festivais, dentre outros programas, todas com foco cultural, educativo, social e com uma visão cristã e humanista, devido à sua forte ligação com a Igreja.

A Fundação foi criada, em 1963, por Vasco Maria Eugénio de Almeida, que era um dos homens mais ricos de Portugal. Após o seu falecimento, em 1975, deixou toda a sua herança para a instituição, uma vez que não tinha herdeiros. Hoje, todo o lucro da vinícola é revertido em Inovação e Tecnologia, de forma a aumentar a qualidade de seus produtos e, também, no desenvolvimento da região (bolsas de estudos, programas de voluntariado, etc.).

A marca Cartuxa produz os vinhos Vinea, EA, Floral de Évora, Cartuxa, Scala Coeli e Pêra-Manca e também os azeites Alamos, EA e Cartuxa. Assim como outras propriedades alentejanas, cultivam também oliveiras e sobreiros (cortiça) e criam gado da raça alentejana, porco preto, ovelhas e cavalos lusitanos. São mais de 6.500 hectares de propriedade, dos quais mais de 400 destinam-se ao cultivo das vinhas.

A Adega Cartuxa e o centro de Enoturismo ficam na Quinta de Valbom, localizada a poucos minutos do centro de Évora, próximo ao Mosteiro da Cartuxa, que foi tomado pelo Estado em 1834, sendo os monges cartuxos expulsos de Portugal. Em 1871, a família Eugénio de Almeida adquiriu as terras, que foi restituída aos monges em 1960, após completo restauro pelo herdeiro Vasco Maria. Hoje, os monges vivem uma vida de total reclusão. É uma das ordens religiosas mais severas. Os monges só podem falar aos domingos, ou nas missas conjuntas. Não é permitida a visita ao Mosteiro, que fica nas proximidades da Adega.

Eu poderia passar horas aqui falando sobre a história da Fundação, do Mosteiro e do envolvimento com a comunidade, pois é muito interessante. Mas vamos aos vinhos!

A visita, que deve ser previamente marcada e, geralmente, acontece em grupo, de hora em hora, foi feita apenas para nós (éramos quatro) e seguiu as mesmas fases da visita normal. A adega que visitamos foi construída pelos jesuítas e foi adquirida pela família no século XIX. Foi o centro de produção da Cartuxa até 2006, mas hoje apenas armazena os vinhos de topo, que estagiam em grandes tonéis ou em barricas de carvalho. Toda a produção migrou para outra adega maior e mais moderna, em Monte de Pinheiros, próximo a Beja (Baixo Alentejo), onde não é permitida a visita.

É possível ver as antigas formas de produção do vinho, com os tonéis de cimento e as ânforas angelinas que faziam todo o vinho sozinhas e foram substituídas nos anos 90. Era difícil controlar a qualidade do produto, desta forma, especialmente por conta do controle de temperatura.

As ânforas angelinas

Apesar de não ser possível ver a área de produção dos vinhos, eles passam um vídeo bem detalhado sobre o processo e a nova adega e é bem impressionante! Nunca vi nada tão moderno e automatizado.

O laboratório define a data de colheita a partir de estudos de açúcar e acidez, assim como os estudos de solo e controle de irrigação. Cerca de 30% da colheita é feita mecanicamente, sempre à noite, com o intuito de manter a frescura da uva. Quando colhidas à mão, as uvas são conservadas em câmaras frigoríficas para manter a temperatura das mesmas em condições homogêneas. A seleção destas uvas, na adega, é completamente automatizada, com uma máquina que analisa cada bago individualmente. O engarrafamento também é completamente automatizado.

A adega se situa abaixo do nível de solo, de forma a utilizar a gravidade para trasfegar o vinho com o menor uso de bombas ou outras formas de manuseio que possam prejudicar a qualidade do vinho (este recurso é usado em grande parte das vinícolas mundo afora).

A Cartuxa produz mais de 3 milhões de garrafas por ano, sendo os principais mercados consumidores: Angola, Brasil e Estados Unidos.

Uma coisa que achei bem interessante na vinícola é o “Corredor de Aromas”. Ao final da visita, antes de seguir para a degustação, passamos por um corredor e podemos sentir os principais aromas de algumas das castas cultivadas pela vinícola: Aragonês, Trincadeira, Castelão, Roupeiro e Antão Vaz. Tudo isso ao som do canto dos monges cartuxos.

 

Agora, a parte mais interessante. A degustação! Quando agenda-se uma visita, deve-se escolher que tipo de degustação se deseja fazer. Cada uma possui um valor específico, que inclui o tour e a prova dos vinhos.

Antes de tudo, fizemos uma prova de azeites: Alamos, EA e Cartuxa. No Brasil, não encontramos o rótulo Alamos, por conta da marca de vinhos argentinos. Lá, o Alamos é vendido como EA. Então, na verdade, não é possível consumir o azeite EA, que é indicado para comidas mais complexas, como cozidos e carnes de caça. O Cartuxa deve ser usado apenas em preparações frias.

Cartuxa Colheita Branco 2013

Produzido a partir das castas Antão Vaz e Arinto, fermentado em aço inox com estágio em borras durante 12 meses. O resultado é um vinho com aromas de frutas tropicais, cítrico e floral, com bom corpo e ótima acidez.

 

Pêra-Manca Branco 2012

Este vinho foi produzido pela primeira vez em 1990, também com as uvas Antão Vaz e Arinto. Uma parte do vinho fermenta em aço inox e outra (dois terços do lote), em barricas de carvalho francês. Após a fermentação, também fica 12 meses em contato com as borras e, após finalização, estagia 9 meses em garrafa. O resultado é um vinho com aromas de abacaxi, casca de laranja, baunilha e um toque amanteigado, com ótima cremosidade, mas uma acidez bem presente, muito equilibrado e com excelente persistência aromática.

 

EA Tinto 2013 (provamos literalmente o EA que vai para o Brasil)

Vinho leve, sem qualquer estágio em madeira, produzido a partir das variedades Trincadeira, Aragonês, Alicante Bouschet e Castelão, clássico lote alentejano. Aromas de frutas vermelhas, com toques florais, boa acidez, corpo médio e taninos macios. Um vinho para ser bebido jovem.

Cartuxa Colheita 2011

Elaborado a partir das uvas Trincadeira, Aragonês, Alfrocheiro e Alicante Bouschet, de vinhedos de meia idade (10 a 15 anos), este vinho estagia por 12 meses, sendo parte em tonéis, parte em barricas de carvalho e mais 12 meses em garrafa. Aromas de frutas escuras, especiarias doces, com um toque defumado, acidez bem integrada e taninos sólidos, mas com toque aveludado.

Scala Coeli Tinto 2011

Significa “Escada para o Céu”. Produzido pela primeira vez em 2005, este vinho é diferente a cada ano, dependendo das melhores safras das castas menos tradicionais do Alentejo. A primeira safra foi um blend de Merlot e Cabernet Sauvignon, mas todo ano as uvas mudam. Ou seja, é um vinho para quem quer conhecer coisas novas, já que é um projeto experimental. De ano para ano, as mudanças no estilo do vinho podem ser drásticas. Já teve 100% Syrah, Alicante Bouschet, Touriga Franca, Syrah novamente... Provamos o Alfrocheiro, que é uma uva típica do Dão.

O nome é uma homenagem ao Mosteiro da Cartuxa, que oficialmente é chamado de Mosteiro de Santa Maria de Scala Coeli.

Com uma maceração pós-fermentação prolongada (35 dias), ainda estagiou por 12 meses em barricas novas de carvalho francês. Aromas mais florais e de frutas vermelhas, com acidez vívida e taninos marcantes.

 

Cartuxa Reserva Tinto 2011

Elaborado a partir das castas Alicante Bouschet e Aragonês, de vinhas velhas, com fermentação em cubas de inox e balseiros de carvalho francês, com maceração de 15 dias e estágio em barricas de carvalho novas por 15 meses, seguidos de mais 12 meses em garrafa.

O resultado é um vinho intenso, com aromas de frutas maduras, especiarias e toques tostados. Um vinho que enche a boca, com boa concentração, taninos maduros e acidez equilibrada.

O Resumo da degustação:

 

O Pêra Manca tinto, que é o grande ícone da vinícola, não é produzido todos os anos. E, quando é produzido, cerca de um terço vai para o Brasil (em torno de 10 mil garrafas). Infelizmente, a safra 2010, a última que estava no mercado, estava com estoque zerado e não pudemos prova-la.

O vinho é sempre produzido a partir das castas Aragonês e Trincadeira, mudando apenas as percentagens, com vinhas com mais de 25 anos, com estágio de 12 a 18 meses em tonéis de carvalho (5 ou 3 mil litros), ao invés das tradicionais barricas de 225 litros, seguido de outro estágio em garrafa. O resultado é um vinho com grande complexidade e longevidade, mas sem aquela madeira marcante.

Os tonéis onde estagiam o Pêra Manca Tinto e o Cartuxa Colheita Tinto

Uma boa notícia para quem visita a adega é que lá, apenas para quem faz o tour, o Pêra Manca é vendido por 100 euros, enquanto que nas lojas de Portugal, ele custa em torno de 279 euros. No Brasil, custa mais de R$ 1.000. Uma ótima oportunidade para comprar este vinho, hein?! Fiquei arrasada porque estava esgotado!

Mas fiz outras comprinhas, que depois vocês vão poder conferir pelo instagram ou por aqui. Fiquem de olho!

Agradeço a toda a equipe da Cartuxa que me recebeu muitíssimo bem e recomendo muito a visita! Fiquei realmente surpresa com a Fundação. Apesar de ter visitado o Fórum Eugénio de Almeida e o Pátio de São Miguel, no centro de Évora, não tinha ideia da dimensão do projeto.

Para conhecer mais sobre a Fundação Eugênio de Almeida, acesse o site http://www.fundacaoeugeniodealmeida.pt/

Para marcar visitas ou conhecer a história da Adega Cartuxa e seus vinhos, acesse: http://www.cartuxa.pt/

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