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Os vinhos da José Maria da Fonseca

em 17.08.15

O primeiro dia da minha enotrip com minha amiga californiana foi em Setúbal. A grande vantagem desta região é que, além de vistas lindas do oceano, é muito próxima de Lisboa, apenas 40 minutos ao sul da cidade.

Lá estão duas grandes vinícolas, a JMF – José Maria da Fonseca e a Bacalhôa, muito próximas entre si. E é a terra dos deliciosos moscatéis fortificados, sob a denominação de Moscatel de Setúbal.

Nossa visita foi na JMF, que produz o nosso tão conhecido Periquita e é uma gigante portuguesa no tocante à produção de vinhos. São mais de 30 marcas, em regiões como a Península de Setúbal, Alentejo, Dão, Douro e Vinhos Verdes, totalizando uma área de 650 hectares e uma produção anual de 6,5 milhões de garrafas. 80% da produção é destinada para a exportação, que atinge 70 países.

Fomos recebidas por Sofia Soares Franco, da sétima geração da família, responsável pela área de Enoturismo e Comunicação da empresa. Seu pai, António Soares Franco é o atual presidente da companhia e seu tio, Domingos Soares Franco, o responsável pela Enologia (e o primeiro enólogo português formado pela Universidade de Davis, na Califórnia). Os irmãos de Sofia, António Maria Soares Franco e Francisco Soares Franco também estão à frente da empresa, sendo o primeiro o Vice-Presidente e o segundo, Diretor de Estratégia e Desenvolvimento.

Fizemos a visita em companhia de uma funcionária que tem mais de 16 anos de casa e que esqueci o nome (terrível, eu sei, mas minha memória para nomes é o ó). Mas já se percebe que estamos num ambiente familiar, o que eu, particularmente, acho muito legal!

A visita começa na Casa Museu, onde há a exibição de mobiliários e equipamentos de enologia antigos, incluindo uma máquina de engarrafar vinhos de 1850, a primeira de Portugal, que engarrafava 200 vinhos por hora, e é uma mostra do quão visionário era José Maria da Fonseca, o homem que criou esta empresa, em 1834. Além de introduzir a venda de vinho em garrafas, ele criou marcas para os seus vinhos, como Moscatel de Setúbal, Periquita e Palmela Superior. Esta casa foi residência da família até a sua quinta geração (o avô de Sofia morava lá).

Máquinas para engarrafar e colocar as rolhas nos vinhos, as primeiras a chegar em Portugal.

Depois seguimos para visitar as antigas adegas, onde até hoje são guardados os barris nos quais estagiam os vinhos produzidos na região, como o Periquita, Periquita Reserva e os Moscatéis de Setúbal.

Os barris onde estagiam os vinhos Periquita são enormes e feitos de mahogany (mogno), que veio do Brasil. A sala, inclusive, foi construída depois que os barris (enormes!) já estavam lá dentro. O Periquita Original estagia 80% em mahogany e 20% em carvalho francês. Já o Reserva, estagia 100% em madeira francesa.

Mas o mais fascinante é a adega dos moscatéis. A sala, que é mais antiga que a própria sede da empresa, tem pé direito alto, chão de areia e temperatura natural, sem qualquer controle. E mesmo no verão se mantém bem fresca. Lá estão armazenados mais de 400 mil litros de vinho, todos em carvalho francês de tamanhos variados. Anualmente, cada barril perde em torno de 2 a 5% de vinho, que evapora através dos poros da madeira. E eles estão sempre renovando estes vinhos. O néctar mais antigo lá é de 1880. Ao fundo da sala está a reserva da família, cujo acesso é altamente restrito.

Sala dos barris de Moscatel

Indicação das safras desde 1880 até início dos anos 80

Reserva da Família, lacrada a 7 chaves

Ao final da visita, passa-se pela loja, onde é possível comprar todas as marcas produzidas por eles em diferentes terroirs, incluindo edições especiais que só é possível encontrar por lá. Até chocolate especial, feito com moscatel, eles vendem. Também há a possibilidade de provar vinhos em taça.

Fizemos uma visita meio rápida, pois o voo da minha amiga atrasou e acabamos demorando um pouco mais para chegar e ainda tínhamos uma degustação para fazer com António, irmão de Sofia. Portanto, seguimos para as instalações onde são produzidos os vinhos, a menos de 5 minutos da Casa Museu.

Junto com António, que é outra simpatia, provamos quase 10 vinhos, iniciando pelos clássicos da linha Periquita. Enquanto provávamos, ele nos contava mais histórias sobre a vinícola, a família, os desafios da exportação, etc. Inclusive, acabaram de mudar de importador no Brasil.

Os vinhos que degustamos, em um dos laboratórios da JMF

O primeiro vinho que degustamos foi o Periquita Branco, que eu aliás nunca havia provado e me surpreendi muuuito! Confesso que eu tinha um pouco de preconceito com os vinhos da linha Periquita, por conta daquela época em que só se bebia este vinho e, para mim, que ainda estava aprendendo, era um vinho extremamente ácido e sem a intensidade de fruta que um aprendiz de enófilo espera. Depois, fui aprendendo mais, conhecendo novos vinhos e nunca voltei para o Periquita, até esta visita. E fiquei surpresa.

Periquita Branco 2014

Esta safra foi excelente para os brancos da região de Setúbal, a melhor dos últimos 30 anos! Uma curiosidade é que este vinho foi lançado pela primeira vez, em 2004, na Suécia e, depois, em 2005, no Brasil. Só na safra de 2006 que chegou ao mercado interno português.

Recentemente, mudaram a composição para um corte de Verdelho (50%), Viosinho (26%) e Viognier (24%), sem passagem por madeira, resultando em um vinho fresco, com aromas cítricos, juntamente com notas de melão, e pêssego, levemente floral. Acidez refrescante e final mediano. Ótimo para beber sozinho ou acompanhando peixes leves.

Preço Médio: R$ 35 | 3,50 €

Periquita Original Tinto 2013

Este foi o primeiro vinho a ser engarrafado em Portugal. A marca Periquita foi registrada em 1841, sendo a primeira marca registrada do país de vinho de mesa. Apesar de não se saber ao certo quando foi a primeira safra deste vinho, sabe-se que já era produzido em 1850 e que ganhou medalha de ouro na Exposição de Berlim, em 1888, pela safra de 1886. É um dos vinhos portugueses mais vendidos no mundo e, especialmente, no Brasil (produção anual de 1.400.000 litros).

Esta safra foi produzida com 48% de Castelão, 37% de Trincadeira e 15% de Aragonês, com 6 meses de estágio em barris novos e usados. Até um tempo atrás, era produzido somente com Castelão, que era popularmente chamada de Periquita. Mas adicionaram novas castas ao blend para torna-lo mais frutado e menos ácido, visto que a Castelão pode ser uma uva que gera vinhos muito agressivos (muito tanino e muita acidez). Mas é essa “agressividade” também que faz com que seus vinhos resistam bastante ao tempo. É possível encontrar garrafas antigas de Periquita (mais de 20 anos) e que ainda sobrevivem bem.

Aromas de frutas vermelhas, com notas de eucalipto e levemente amadeirado, com taninos marcantes e acidez mediana. Pode ser apreciado com charcutaria, pratos de caça e carnes em geral.

Apesar de não ter sido o meu preferido do dia, fiquei feliz em prova-lo novamente e ver que o vinho mudou e, que, apesar de ser  simples e jovem, não é mais aquele vinho ácido e agressivo no paladar. A safra de 2007, inclusive, chegou a receber 84 pontos de Robert Parker.

Preço Médio: R$ 35 | 3,50 €

A linha Periquita ainda conta com um vinho rosé.

Periquita Reserva 2012

Este, sim, foi um dos meus preferidos. Elaborado com as uvas Castelão (49%), Touriga Nacional (35%) e Touriga Francesa (15%), com estágio de 8 meses em carvalho francês, novo e usado. Cor intensa, com aromas de frutas escuras, violeta, café e baunilha, taninos bem integrados e aveludados, acidez correta, e final relativamente longo. Um vinho daqueles que não conseguimos parar de beber, de tão sedoso e saboroso. Harmoniza com carnes vermelhas grelhadas e queijos de sabor mais intenso.

É o único da sua categoria.

Preço Médio: R$ 70 | 7,50 €

Ripanço Private Selection Vinho Regional Alentejano 2013

Vinho produzido na adega José de Sousa, em Reguengos de Monsaraz, no Alentejo, utilizando uma técnica antiga chamada “ripanço”, que consiste no desengaçamento manual das uvas em uma mesa especial (mesa de ripanço), evitando, assim, os taninos mais duros do engaço. É possível ver a técnica neste vídeo

Produzido com 48% de Syrah, 32% de Aragonês e 20% de Alicante Bouschet, com estágio de 6 meses em carvalho francês e americano, ambos novos. De cor rubi intensa, muita fruta vermelha e escura, notas defumadas, com leve toque de caramelo, acidez vivaz, taninos macios e álcool levemente alto. Um vinho bem interessante, excelente para acompanhar um belo churrasco, ou ainda um filé à parmegiana.

Preço Médio: R$ 77 | 6 €

Domini Douro Tinto 2013

Esta degustação nos fez passear por várias regiões de Portugal, sem sairmos do Azeitão! O Douro foi a última zona na qual a JMF passou a produzir vinhos, inicialmente com o topo de gama, Domini Plus, depois com o Domini, ambos tintos.

Produzido a partir de três das principais castas da região, Touriga Nacional (52%), Tinta Roriz (31%) e Touriga Francesa (17%), com estágio de 3 meses em barricas novas de carvalho francês e americano, este vinho apresenta uma cor rubi escura, com aromas de violeta, frutas escuras maduras, toque mineral (rochas), e baunilha. Corpo cheio, taninos sedosos e acidez equilibrada. Vem, constantemente, recebendo boas notas na Wine Spectator. Harmoniza com pratos clássicos portugueses, como alheiras e chouriços, leitão e até um belo lombo de bacalhau a lagareiro.

Preço Médio: R$ 70 | 7,50 €

José de Sousa Vinho Regional Alentejano 2012

Produzido na mesma adega do Ripanço, no Alentejo, uma adega com muita história, que data 1878 e que foi adquirida na década de 80 pela José Maria da Fonseca. A adega mantém, até hoje, a tradição da pisa a pé e do usa das ânforas, ténica muito usada pelos romanos. Este vinho é um corte de 48% de Grand Noir*, 38% de Trincadeira e 20% de Aragonês. Uma pequena parcela do vinho é vinificada em ânforas de barro e o restante, em tanques de aço inoxidável, com estágio final de 9 meses em carvalho novo, francês e americano. O resultado é um vinho de cor rubi intensa, aromas de frutas escuras maduras, tabaco, especiarias e toques terrosos, com taninos muito bem integrados e acidez balanceada. Um vinho muito agradável de beber, que pode acompanhar carne de porco, pato e queijos portugueses.

Preço Médio: R$ 87 | 8 €

José de Sousa “MAYOR” Vinho Regional Alentejano 2012

Se o vinho anterior já é muito bem elaborado e muito agradável de beber, este chamou ainda mais a minha atenção. Dos vinhos tranquilos que provamos, foi sem dúvida, o meu preferido do dia.

Com um corte semelhante de Grand Noir  (54%), Trincadeira (24%) e Aragonês (22%), neste vinho destacam-se as técnicas tradicionais, como o uso de lagares e ânforas de barro. Primeiro, as uvas que chegam em caixas de 20kg são pisadas em um pequeno lagar, assim como era feito entre os séculos XVIII e XIX, cujas massas e mosto são depois transferidas em parte para ânforas de barro e o restante para lagares maiores para fermentar por 10 dias, seguido da maceração por 2 semanas, depois acondicionados em barris novos de carvalho francês por 9 meses. Após o blend final, segue para o Azeitão, onde é engarrafado, sem filtragem. O resultado é um vinho de cor intensa, aromas de chocolate, frutas vermelhas e pretas, especiarias e notas terrosas ainda mais intensas, com toques tostados. Eu podia ficar ali durante horas sentindo esse buquê. No paladar, apresenta taninos marcantes, acidez equilibrada, corpo cheio e final longo. Simplesmente maravilhoso.

Preço Médio: R$ 165 | 19 €

Alambre Moscatel de Setúbal 2010

Vinho fortificado ou generoso, como também é chamado, produzido com a uva Moscatel de Setúbal. A fermentação é interrompida com a adição de aguardente vínica. O mosto fica em contato com a casca das uvas por 5 meses, com envelhecimento em tonéis usados. Este moscatel de entrada tem cor âmbar-dourada, com aromas de frutas secas, manga e caramelo, acidez elevada e final relativamente longo. Um vinho que pode acompanhar sobremesas à base de creme, ou que pode ser servido como aperitivo, com gelo e tônica, por exemplo.

Preço Médio: R$ 75 | 6 €

Alambre Moscatel de Setúbal 20 anos

Vinho fortificado, sendo um lote de 19 colheitas, na qual a mais nova tem 20 anos e a mais velha em torno de 80 anos. As uvas, ao chegarem à adega, são analisadas quanto ao grau de açúcar para que a adição de aguardente vínica seja feita no momento ideal. Aqui, a casca também fica em contato com o mosto por 5 meses e parte do vinho é destinado para o envelhecimento prolongado na cave da Casa Museu. De coloração âmbar, com aromas de laranja confeitada, caramelo, passas brancas, avelãs, toques tostados. Apesar do grau elevado de álcool (18,4%), não senti aquele queimor no peito. Acidez elevada e final longo. Perfeito para acompanhar queijos e sobremesas à base de creme, chocolate e frutos secos. Vinho maravilhoso, que figurou entre os “Top 10” da Expovinis 2015, como melhor vinho fortificado do evento.

Preço Médio: R$ 350 | 24 €

Resultado final da prova

Depois de uma prova destas, saímos mais do que felizes de lá. Além de sermos muito bem recebidos, provamos vinhos maravilhosos e pude atestar, mais uma vez, como os vinhos da JMF são bem elaborados, não importando a linha, a região ou o preço.

Para conferir toda a história da empresa, assim como suas linhas de vinhos, basta acessar o site da José Maria da Fonseca.

Após a visita, pernoitamos no Hotel Club d’Azeitão, que fica a 5 minutos da parte industrial da JMF, onde fizemos a degustação. No dia seguinte, por indicação de António Maria, almoçamos no Casa das Tortas, no centro de Vila Nogueira do Azeitão, que faz carnes grelhadas na churrasqueira. Simples e delicioso. Eu, para variar, fui de secretos de porco, um dos meus pratos portugueses preferidos.

Na noite anterior, acabamos indo até Portinho da Arrábida, uma praia a 20 minutos do hotel. Comemos sardinhas grelhadas, em um restaurante à beira do mar, o Farol. Estava bom, mas gostei mais do Casa das Tortas, apesar de que a vista de Portinho já vale qualquer visita!

Vista do restaurante Farol, em Portinho da Arrábida.

Quem estiver em Lisboa e não conseguir ir até Setúbal para fazer uma visita à JMF, pode ir ao By The Wine, bar de vinhos da vinícola, onde é possível degustar vinhos em taça ou garrafa, com toda a linha de produtos da JMF, servidos com petiscos variados. O bar fica na Rua das Flores, no Chiado.

*Grand Noir - casta tintureira (que dá cor aos vinhos), cruzamento entre as castas francesas Petit Bouschet e Aramon Noir, que chegou a Portugal provavelmente em meados do século XIX e utilizada, hoje, basicamente pela JMF.

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